Quem mandou matar Marielle Franco?


Há um ano Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados. Em 14 de março de 2018, Marielle havia  acabado de participar de um debate no espaço coletivo Casa das Pretas, na Lapa. Há exatamente uma ano nós fazemos três perguntas: Quem matou Marielle e Anderson? Quem mandou matar Marielle? Qual a motivação para este crime?



No último dia 12 de março de 2019, foram presos Élcio Vieira de Queiroz e Ronie Lessa. De acordo com as investigações, Élcio de Queiroz é o policial militar que conduzia o veículo. Ronie Lessa, policial militar reformado, teria efetuado os 13 disparos contra o carro conduzido por Anderson no qual se encontravam Marielle Franco e Fernanda  Chaves, uma de suas assessoras e sobrevivente do atentado.

Ronie Lessa foi preso em sua casa localizada na mesma rua e no mesmo condomínio em que vive Jair Bolsonaro. É possível ver da varanda de Lessa, o quarto da filha de Bolsonaro. O delegado que estava a frente do caso afirmou ainda que a filha de Lessa namorou um dos filhos de Bolsonaro. Além disso, R$62 mil foram encontrados no carro de Lessa e R$50 mil na casa dos pais do policial.

No mesmo dia, a Polícia Civil apreendeu 117 fuzis M-16 na casa de Alexandre Motta Souza, um amigo de Lessa. Além dos fuzis foram encontradas 500 munições, 3 silenciadores e R$112 mil em dinheiro. O arsenal valorado em R$3,5 milhões foi apreendido na Operação Buraco do Lume e é considerada a maior apreensão do Rio de Janeiro. Alexandre afirmou que as armas e munições pertencem à Lessa.

Mas... para quem quer manter o benefício da dúvida, é preciso perceber outras "coincidências".
Retroceder no tempo é necessário para identificar as espúrias ligações entre a família Bolsonaro e o próprio Jair Bolsonaro, com as milícias do Rio de Janeiro. Além disso, é importante reconhecer o papel que as milícias do Rio têm na estrutura política deste estado, na sua força para eleger governadores, deputados e prefeitos, a exemplo do ex-governador preso Sérgio Cabral e Eduardo Paes.

Relações e "Coincidências" entre a família Bolsonaro, as milícias e  a Morte de Marielle Franco

Não é de hoje que Jair Bolsonaro e sua família se envolvem em discussões em torno das milícias.

Em 2004, Flávio Bolsonaro homenageou com "menção de louvor e congratulações" o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira, um dos envolvidos na chacina do Via Show em 2003. Junto com Ronald também foi homenageado Adriano Magalhães da Nóbrega, um dos líderes da milícia Escritório do Crime.

Em 2008, há 11 anos quando ainda era deputado federal, Jair Bolsonaro defendeu abertamente a atuação destes grupos criminosos em plenário da Câmara dos Deputados:
                                     
                                                "Existe miliciano  que não tem nada a ver com gatonet e venda de gás.                                                   Como ele ganha 850 reais por mês, que é quanto ganha um soldado                                                      da  PM ou do bombeiro, e tem sua própria arma, ele organiza a                                                             segurança na sua comunidade."

Ainda no mesmo ano, Bolsonaro foi mais explícito em outra afirmação:

                                                  "Elas [as milícias] oferecem segurança e, desta forma, conseguem                                                           manter a ordem e a disciplina nas comunidades. É o que se chama                                                         de milícia. O governo deveria apoiá-las, já que não consegue                                                                 combater o tráfico de drogas".

Em 2011, ainda como deputado estadual, Flávio Bolsonaro afirmou que Patrícia Lourival Acioli "gostava de humilhar policiais". Para ventilar a memória, Patrícia Acioli foi a juíza que foi executada após ser jurada de morte durante anos por grupos de extermínio.

Em 2018, Raimunda Veras Magalhães e Danielle Medonça da Costa Nóbrega foram identificadas como mãe e mulher do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega. Adriano, também conhecido como Gordinho, foi identificado como umas das lideranças do Escritório do Crime, grupo miliciano envolvido na morte de Marielle e Anderson e um dos mais poderosos do Rio. Ambas, Raimunda e Danielle, trabalhavam no gabinete de Flávio Bolsonaro, à época deputado federal, na Assembléia Legislativa. Adriano foi preso na Operação Intocáveis realizada em janeiro deste ano pela Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro, entretanto hoje se encontra foragido.

Quando Marielle e Anderson foram assassinados em março de 2018, Bolsonaro foi o único possível candidato à Presidência da República que não se manisfestou em relação a estas duas execuções. Não criticou, não condenou, nem manifestou pêsames. Se manteve no mais absoluto silêncio. Por sua vez, seu filho Flávio Bolsonaro criticou de forma contundente todos aqueles que levantaram suspeita sobre o envolvimento de policiais.

O histórico da família Bolsonaro e do próprio presidente de defender acusados de assassinatos e de ser complacente em seus discursos e atos com as milícias do Rio de Janeiro, os coloca no centro da discussão quando o assunto é: quem mandou matar Marielle?

É bastante comprometedor o tempo de duração da investigação de um crime que mobilizou o Brasil e a comunidade internacional. A Polícia Federal entrou no caso somente no fim do ano de 2018. Raul Jungmann, à época ministro da Segurança Pública, definiu esta inserção como "uma investigação sobre a investigação". O mesmo ministro disse ainda que o processo de investigação deste crime "é uma aliança satânica entre corrupção e crime organizado".

Jungmann se referiu especificamente ao assassinato de Marielle com a seguinte afirmação:

                                                     "Fica claro que existiria uma grande articulação envolvendo                                                                   agentes públicos, milicianos, políticos, num esquema muito                                                                     poderoso, que não teria interesse na elucidação do caso Marielle,                                                         até porque estariam envolvidos nesse processo, se não tanto na                                                              qualidade daqueles que executaram, na qualidade de mandantes."

O fato é que estamos diante de uma quadrilha que chegou no poder pela via do crime, da mentira e da incitação ao ódio. Ódio este que eles precisam administrar para se manterem no poder. O discurso de Bolsonaro ao exaltar Brilhante Ustra, o único torturador e assassino condenado pelos crimes da ditadura, já denunciava o destino que nos esperava.  Bolsonaro e sua família já mostraram antes, durante e após as eleições o que são capazes de fazer para se sustentarem nos cargos que alcançaram. Eles seguirão com a estratégia de transformar opositores em inimigos que serão silenciados se preciso for.

A última notícia é que ontem, 13 de março, o delegado que estava conduzindo a investigação do caso Marielle Franco foi afastado do processo. No discurso oficial, a justificativa é que Ginilton Lages "cumpriu a sua missão". Diante da complexa teia que envolve o caso, tal justificativa pode ser colocada em cheque.

Esclarecer os assassinatos de Marielle e Anderson é expor ao mundo a falsa normalidade democrática brasileira e as feridas abertas do Brasil que já sangram historicamente. Sangram pelas mortes do jovens negros das periferias das cidades, das mulheres, especialmente as mulheres negras que configuram a parte mais vulnerável da sociedade brasileira, das pessoas LGBTQIA+, destas pessoas que há pouco tempo atrás colocavam seus corpos nas ruas e falavam alto as mudanças que queriam. O corpo ferido e morto de Marielle não apaga a força e a energia de um sorriso que contagiava e mobiliza a todos e todas em uma luta política mobilizada pelos afetos.

Mas continuaremos querendo saber: QUEM MATOU MARIELLE?! Hoje o mundo sairá às ruas cobrando respostas.
A luta de Marielle está mais viva que nunca!!
Anderson presente!
Marielle presente!!

Juliana Guimarães
Doutora em Saúde Coletiva - ENSP/FIOCRUZ/RJ
Felipe Breier
Historiador. Discente do curso de Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura - Universidade do Minho/Portugal











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